Conforme pontua Marcello José Abbud, diretor de operações da Ecodust Ambiental e referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos, entre os indicadores utilizados para avaliar o nível de desenvolvimento de uma nação, a pegada de resíduos, que mede o volume e a composição dos resíduos gerados per capita e a forma como são gerenciados, oferece uma perspectiva que os indicadores econômicos tradicionais não capturam.
A relação entre geração de resíduos, capacidade de gestão e qualidade ambiental revela dimensões do desenvolvimento que o PIB per capita ou o IDH deixam de fora, tornando a pegada de resíduos um indicador complementar de grande utilidade para avaliar a sustentabilidade real do modelo de desenvolvimento de um país. Convidamos você a conhecer mais sobre o que esse indicador revela e o que ele diz sobre o Brasil.
O que é a pegada de resíduos e como ela é medida?
A pegada de resíduos de um país ou de uma cidade é calculada a partir de dois componentes principais: o volume de resíduos gerado per capita ao longo de um período, geralmente um ano, e a forma como esses resíduos são gerenciados, considerando as proporções destinadas à reciclagem, à compostagem, à valorização energética e ao aterramento ou ao descarte inadequado. Um país que gera muito lixo per capita, mas recicla e valoriza a maior parte, tem uma pegada de resíduos muito diferente de outro que gera menos lixo, mas descarta a maioria em aterros ou lixões.
Conforme apresenta Marcello José Abbud, a comparação da pegada de resíduos entre países revela padrões que desafiam algumas intuições comuns sobre desenvolvimento e sustentabilidade. Afinal, países de alta renda tendem a gerar mais resíduos per capita do que países de menor renda, reflexo de padrões de consumo mais intensivos, mas também tendem a ter sistemas de gestão mais eficientes que recuperam uma proporção maior dos materiais gerados. Por outro lado, os países de renda média, como o Brasil, frequentemente combinam volumes crescentes de geração com sistemas de gestão ainda insuficientes para processar adequadamente o que é produzido.

O que a pegada de resíduos do Brasil revela?
O Brasil gera mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, com uma taxa de geração per capita que cresce consistentemente, acompanhando o aumento do consumo das famílias. A taxa de reciclagem efetiva, porém, permanece entre as mais baixas entre os países de renda média, com estimativas que indicam que menos de 4% dos resíduos gerados são efetivamente reciclados, apesar de uma cadeia de catadores e cooperativas que representa um dos maiores sistemas informais de reciclagem do mundo.
Na concepção de Marcello José Abbud, a combinação entre crescimento da geração e baixa taxa de recuperação resulta em uma pegada de resíduos que pressiona crescentemente os aterros sanitários existentes e perpetua a dependência de novos aterros como solução de destinação final. A ausência de sistemas estruturados de compostagem para a fração orgânica, que representa mais da metade do volume gerado, é um dos maiores gargalos da pegada de resíduos brasileira, com impactos diretos sobre as emissões de gases de efeito estufa e sobre os custos operacionais dos aterros.
Como reduzir a pegada de resíduos e o que isso significa para o desenvolvimento?
Reduzir a pegada de resíduos de um país não significa necessariamente reduzir o consumo ou o crescimento econômico, mas sim tornar esses processos mais circulares e eficientes em termos de uso de materiais. Países que conseguiram desacoplar o crescimento econômico do aumento da geração de resíduos fizeram isso por meio de uma combinação de design circular de produtos, responsabilidade estendida do produtor, infraestrutura robusta de reciclagem, valorização energética e educação ambiental que mudou padrões de comportamento ao longo de gerações.
Sob o entendimento de Marcello José Abbud, reduzir a pegada de resíduos do Brasil é simultaneamente uma necessidade ambiental, uma oportunidade econômica e um indicador de maturidade institucional. Países com pegadas de resíduos mais eficientes não são apenas mais sustentáveis ambientalmente, mas também mais competitivos economicamente, pela menor dependência de matérias-primas virgens e pela geração de empregos e renda na cadeia de valorização de materiais. Avançar nessa direção é uma das formas mais concretas de construir um modelo de desenvolvimento que seja simultaneamente próspero e sustentável para as próximas gerações.
