Gestão rural entra na era dos dados: O que muda na prática?

Pauline Bellier
Pauline Bellier
Parajara Moraes Alves Junior

Na visão de Parajara Moraes Alves Junior, contador especialista em agronegócio, a apuração fiscal do produtor rural está deixando de ser um processo manual, feito uma vez por ano, para se tornar uma rotina de dados monitorada quase em tempo real pelo próprio Fisco. Esse deslocamento muda o que se espera de qualquer produtor a partir de agora, inclusive de quem nunca teve problema com a Receita Federal.

Entender o que está mudando e por que isso importa, além do cumprimento da obrigação legal, ajuda o produtor a se antecipar em vez de correr atrás de um sistema que já está em movimento e que não vai esperar por quem ainda organiza tudo no papel.

Por que a apuração fiscal rural está deixando de ser manual?

Durante décadas, a apuração fiscal do produtor rural dependia quase inteiramente do que ele próprio registrava, com pouca capacidade prática do Fisco de conferir cada informação em tempo hábil. Esse cenário mudou de forma acelerada com a digitalização progressiva das obrigações acessórias exigidas de toda a cadeia produtiva.

Hoje, boa parte dos dados que sustentam a apuração do produtor já nasce em formato digital, seja pela nota fiscal eletrônica, pelo cadastro de movimentação de rebanho ou pelos registros de comercialização feitos por cooperativas e agroindústrias parceiras. Cada uma dessas fontes alimenta uma base que o Fisco já consulta de forma automatizada.

Essa mudança não é exclusiva do agronegócio, mas atinge o setor rural com força particular, porque historicamente ele operou com registros mais informais do que outros segmentos da economia, o que tornava o controle manual algo aceitável até pouco tempo atrás.

O papel do cruzamento de dados na tributação do produtor rural

Parajara Moraes Alves Junior explica que o cruzamento de dados já é a principal ferramenta usada pelo Fisco para identificar divergência entre o que o produtor declara e o que outras fontes registram sobre a mesma operação, sem depender de fiscalização presencial na propriedade.

Uma venda registrada pela cooperativa, por exemplo, precisa aparecer de forma compatível na declaração do produtor rural que a realizou. Quando os números não batem, o sistema gera um alerta automático, muito antes de qualquer fiscal abrir um processo para analisar o caso manualmente.

Parajara Moraes Alves Junior
Parajara Moraes Alves Junior

Esse tipo de cruzamento, segundo Parajara Moraes Alves Junior, tende a se tornar ainda mais amplo nos próximos anos, incorporando dados de logística, de crédito rural e de uso de insumos numa mesma base integrada de informação fiscal.

Ferramentas de gestão digital que já mudam a rotina do produtor

Aplicativos de controle financeiro rural, sistemas de gestão de safra e plataformas de emissão de nota fiscal já substituem, em muitas propriedades, o caderno de anotações que por décadas serviu de registro único da atividade produtiva da família.

Parajara Moraes Alves Junior aponta que a adoção dessas ferramentas reduz o risco de erro justamente por eliminar etapas manuais de lançamento, que são a origem da maior parte das divergências encontradas em auditorias de propriedades rurais de qualquer porte.

A resistência à mudança vem menos da tecnologia em si e mais da rotina antiga, difícil de abandonar depois de anos de funcionamento aparentemente sem problemas, mesmo quando esses problemas já estavam apenas represados, não resolvidos.

O espaço da inteligência artificial na contabilidade rural

Parajara Moraes Alves Junior observa que a inteligência artificial já entra na rotina contábil rural de forma discreta, na conferência automática de lançamentos e na sinalização de inconsistências antes mesmo do fechamento mensal do Livro Caixa ou da escrituração da empresa.

Essas ferramentas não substituem a análise humana sobre o contexto da operação, mas reduzem o tempo gasto em tarefas repetitivas, como comparar centenas de notas fiscais com o extrato bancário do mesmo período de apuração.

Desse modo, o ganho real está menos na tecnologia em si e mais na disciplina que ela impõe: dados organizados mês a mês, prontos para qualquer cruzamento que o Fisco decida fazer a qualquer momento do ano.

O que essa mudança exige do produtor nos próximos anos?

Acompanhar essa transição não depende de dominar tecnologia avançada, mas de manter os registros da atividade organizados com a mesma regularidade que qualquer sistema automatizado exigiria de uma empresa de outro setor da economia. Quem começa a se adaptar agora, ainda que aos poucos e com ferramentas simples, chega ao próximo ciclo de fiscalização mais preparado do que quem espera a mudança se tornar obrigatória para só então reagir sob pressão.

 

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