Seguro rural ainda é visto como custo, e não como proteção

Pauline Bellier
Pauline Bellier
Matheus Gusatti

Uma estiagem no período de enchimento de grãos pode levar embora metade da produção em poucas semanas, e produtores como Matheus Gusatti conhecem bem o peso de uma safra frustrada sobre o caixa da propriedade. Mesmo assim, o seguro rural segue fora do planejamento de boa parte do campo. A resistência costuma se apoiar em ideias que não resistem a uma análise mais cuidadosa das regras atuais.

A ideia de que o seguro rural é caro demais

O preço da apólice é a primeira objeção. O que muitos produtores desconhecem é que o governo federal, por meio do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), paga parte do valor contratado. O percentual varia conforme a cultura, a modalidade e a disponibilidade de orçamento do ano, e alguns estados oferecem subvenção complementar.

O cálculo correto também não compara o prêmio com zero. A comparação justa é entre o custo da apólice e o tamanho do prejuízo que a propriedade teria de absorver sozinha. Uma perda severa sem cobertura pode comprometer o pagamento de insumos, arrendamento e financiamentos de mais de um ciclo.

Quando a indenização não sai

Outra crença comum é a de que a seguradora sempre encontra um motivo para negar o pagamento. Na prática, boa parte dos conflitos nasce de falhas na contratação: data de plantio fora da janela indicada pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), uso de cultivar não recomendada para a região ou falta de registros do manejo realizado.

O ZARC, elaborado pela Embrapa e adotado pelo Ministério da Agricultura, indica para cada município os períodos de plantio com menor risco climático. Seguir o calendário é condição para acessar a subvenção e boa parte das apólices. Para quem, como Matheus Gusatti, acompanha a rotina de uma lavoura, manter notas fiscais, receituários e fotos da área é tão importante quanto a própria contratação.

Apólices diferentes para riscos diferentes

Existe também a percepção de que o seguro serve apenas para grandes áreas de soja. O mercado oferece modalidades distintas: o seguro de custeio protege o valor investido na lavoura, o de produtividade garante uma produção mínima por hectare e o de faturamento combina volume e preço. Há ainda coberturas para pecuária, florestas, máquinas e benfeitorias.

Pequenos e médios produtores que tomam crédito de custeio podem contar com o Proagro, programa público que cobre parte das perdas por eventos climáticos e pragas sem controle conhecido. A versão voltada à agricultura familiar, o Proagro Mais, atende quem financia a safra pelo Pronaf. A escolha entre as opções depende do perfil da propriedade e do tipo de risco que mais preocupa.

O peso da falta de proteção no endividamento

A ausência de seguro tem efeito que vai além de uma safra. Quando a produção cai e não há indenização, o produtor costuma renegociar dívidas, vender ativos ou buscar novo crédito em condições piores. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil aponta a falta de instrumentos de gestão de risco como um dos fatores que ampliam o endividamento no campo após perdas climáticas.

Eventos extremos, como secas prolongadas e chuvas excessivas na colheita, tornaram-se mais frequentes em diversas regiões produtoras. Em um cenário assim, depender apenas da sorte deixou de ser estratégia viável, realidade que pesa sobre Matheus Gusatti e sobre milhares de propriedades expostas ao mesmo clima.

Seguro como parte do custo de produção

Tratar a apólice como despesa opcional é o erro de base. Quem a inclui no orçamento da safra, ao lado de sementes, fertilizantes e defensivos, passa a enxergar o seguro pelo que ele é: um instrumento para garantir que a propriedade continue produzindo no ano seguinte, mesmo depois de um ciclo ruim.

A contratação exige pesquisa, leitura atenta das condições gerais e apoio de um corretor que conheça a realidade agrícola da região. Para o produtor rural Matheus Gusatti e para quem enfrenta as mesmas incertezas, a proteção da renda passa a ser decisão de gestão, tomada antes do plantio e não depois do prejuízo.

 

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