Tratar o conflito antes ou durante a reunião de conselho?

Pauline Bellier
Pauline Bellier
Haroldo Augusto Filho

Um desacordo entre dois membros de um conselho de administração pode ser tratado de formas bem diferentes, dependendo de quando e onde ele é enfrentado. Levá-lo diretamente para a reunião formal é uma opção. Conversar com as partes antes, fora daquele ambiente, é outra. As duas abordagens resolvem o mesmo tipo de conflito, mas produzem resultados distintos, tanto no processo quanto na forma como o restante do conselho experimenta a decisão.

Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial e gestão de conflitos, observa que a escolha entre essas duas abordagens costuma ser feita por hábito, não por avaliação do que cada situação específica pede. Entender o que cada caminho favorece ajuda a escolher com mais intenção, em vez de repetir sempre o mesmo padrão.

Resolver dentro da reunião: transparência com exposição

Tratar o desacordo na própria sessão do conselho tem a vantagem de manter todos os membros informados ao mesmo tempo, sem versões diferentes circulando depois. A decisão nasce coletiva, com todos acompanhando o raciocínio que levou até ali.

O custo dessa transparência é a exposição. Discutir um ponto de atrito na frente de todo o conselho pode levar os dois lados a defender posições com mais rigidez do que teriam numa conversa mais reservada, justamente porque estão sendo observados por pares que vão lembrar de como cada um se posicionou. Haroldo Augusto Filho considera esse efeito um dos motivos pelos quais conflitos técnicos, discutidos abertamente, às vezes demoram mais para se resolver do que o próprio conteúdo em disputa justificaria.

Resolver fora da reunião: espaço para ajuste, menos registro coletivo

Conversar com as partes antes da sessão formal permite ajustes de posição sem o peso de estar sendo observado por todo o grupo. Cada lado tem mais liberdade para reconsiderar um ponto sem parecer estar cedendo publicamente, o que costuma facilitar acordos mais rápidos sobre questões pontuais.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Haroldo Augusto Filho destaca que essa abordagem tem um custo diferente: parte do conselho pode chegar à reunião formal já com uma posição definida, sem ter acompanhado o processo que levou até ela, o que reduz o senso de decisão coletiva sobre o tema.

O que determina qual caminho serve melhor a cada situação?

Conflitos sobre questões técnicas, com poucos pontos em disputa e baixo risco de desgaste pessoal, tendem a se beneficiar de serem resolvidos fora da reunião, com mais agilidade e menos exposição. Já conflitos que envolvem decisões estratégicas relevantes para todo o conselho tendem a se beneficiar de serem discutidos dentro da reunião, mesmo com o desconforto da exposição, porque o processo coletivo faz parte do próprio valor da decisão, e não apenas do resultado final alcançado.

Haroldo Augusto Filho nota que misturar os dois critérios, tratando toda questão do mesmo jeito, independentemente do seu peso, costuma gerar tanto reuniões desgastantes com temas que não precisavam de exposição quanto decisões estratégicas tomadas sem o envolvimento adequado do colegiado.

Nenhuma das duas abordagens é superior de forma absoluta

A escolha entre resolver dentro ou fora da reunião não é sobre qual caminho é geralmente melhor, é sobre qual serve à natureza específica de cada conflito. Conselhos que aplicam sempre o mesmo padrão, independentemente do tema em disputa, tendem a desperdiçar a vantagem que a outra abordagem ofereceria naquele caso específico. Para Haroldo Augusto Filho, reconhecer essa diferença antes de decidir onde tratar um desacordo é o que permite usar cada formato pelo que ele realmente tem a oferecer.

 

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