Retorno ao trabalho depois de um afastamento por saúde mental exige mais do que atestado de alta

Éverton da Costa Sagiorato

O momento em que um funcionário retorna ao trabalho após afastamento por transtorno mental costuma receber menos atenção do que o próprio período de afastamento. Na prática, é um momento crítico, segundo Dr. Éverton da Costa Sagiorato, médico do trabalho: retorno mal conduzido tem taxa relevante de recaída, enquanto retorno bem estruturado pode consolidar a recuperação e prevenir novo afastamento no curto prazo.

Por que o retorno abrupto costuma falhar?

O modelo mais comum ainda é binário: a pessoa está afastada, recebe alta médica e, no dia seguinte, retoma a rotina de trabalho exatamente como era antes do afastamento, com a mesma carga, o mesmo ritmo e as mesmas condições que, em muitos casos, contribuíram para o adoecimento inicial. “Esse retorno sem transição ignora que a recuperação de um quadro de saúde mental raramente é linear, e que a capacidade de sustentar a rotina anterior de trabalho pode não estar totalmente restabelecida no dia exato da alta”, explica Dr. Éverton da Costa Sagiorato.

Retomar exatamente a mesma condição que precedeu o afastamento, sem qualquer ajuste temporário, aumenta o risco de reincidência do quadro em um prazo relativamente curto.

O que caracteriza um retorno gradual bem estruturado?

Um processo de retorno mais cuidadoso, descreve o médico do trabalho, costuma incluir redução temporária de carga de trabalho, acompanhamento mais próximo nas primeiras semanas e conversa estruturada sobre quais condições específicas do ambiente de trabalho podem ter contribuído para o adoecimento original, para que essas condições sejam ajustadas antes da retomada plena, sempre que isso for possível dentro da realidade da função.

Esse acompanhamento também deveria incluir orientação para a liderança direta do funcionário, que muitas vezes não recebe qualquer instrução sobre como conduzir esse retorno, e acaba tratando a situação apenas do ponto de vista de reposição de força de trabalho, sem considerar a fragilidade do momento.

Éverton da Costa Sagiorato
Éverton da Costa Sagiorato

Por que o retorno ao trabalho após afastamento por saúde mental precisa ser gradual? Na avaliação de Dr. Éverton da Costa Sagiorato, a recuperação de quadros de saúde mental raramente é linear, e retomar imediatamente a mesma carga e condições de trabalho que antecederam o afastamento aumenta o risco de recaída, sendo recomendado um processo de retomada progressiva, com acompanhamento próximo nas primeiras semanas.

O papel do médico do trabalho nesse processo

O acompanhamento de retorno ao trabalho, segundo Dr. Éverton da Costa Sagiorato, envolve avaliação que vai além de confirmar aptidão genérica para a função. Inclui entender, junto ao próprio trabalhador, quais fatores específicos do ambiente de trabalho anterior podem ter contribuído para o quadro, e propor ajustes possíveis, sejam eles de carga, de rotina ou de relação com a equipe, antes de considerar o retorno plenamente consolidado.

Esse acompanhamento também serve como fonte de informação para a própria gestão de riscos psicossociais da empresa: um padrão de afastamentos e retornos concentrados em um mesmo setor é, em si, um dado relevante sobre onde o risco organizacional está localizado.

Por que empresas subestimam o custo de um retorno mal conduzido?

O custo de um retorno abrupto e mal estruturado, seguido de nova recaída em um prazo curto, tende a ser maior do que o custo de um processo de retorno mais gradual e acompanhado, mas esse cálculo raramente é feito de forma explícita dentro da gestão de recursos humanos. “Novo afastamento significa novo período sem produtividade, novo processo de reposição temporária e, para o trabalhador, potencial agravamento do próprio quadro de saúde, o que amplia o tempo total de recuperação em comparação a um processo mais cuidadoso desde o início”, pondera Dr. Éverton da Costa Sagiorato.

Um ponto de atenção que tende a ganhar peso na gestão de riscos psicossociais

Com a exigência de gerenciamento contínuo de fatores psicossociais, o momento de retorno ao trabalho após afastamento por saúde mental tende a ganhar mais atenção formal dentro dos processos de saúde ocupacional das empresas, conclui o médico do trabalho, deixando de ser tratado como simples formalidade administrativa e passando a ser reconhecido como etapa que exige planejamento específico, com potencial real de determinar se a recuperação se consolida ou se repete em ciclo.

 

Compartilhe esse artigo